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Portos & Logística

Terminal em planilha: o que sai do Excel primeiro

Gui Ferreira

Por Gui Ferreira

Publicado em 28 de setembro de 2026

Terminal em planilha: o que sai do Excel primeiro

O consenso sobre IA no setor portuário é quase unânime. A prática, não.

73%

das grandes redes consideram IA e automação essenciais

54%

ainda dependem de planilha e processo manual

44%

não têm visibilidade de dados em tempo real

36%

usam IA para coletar e analisar dados operacionais

Tideworks Technology + Port Technology International, 107 profissionais de terminais intermodais na América do Norte, Europa, Ásia e América Latina, 24/04/2025

Setenta e três por cento também usam dashboards e ferramentas de relatório. O setor já tem tela. O que falta é o dado por baixo dela.

Este artigo é sobre a planilha: o que ela está segurando num terminal, por que sobrevive, e em que ordem tirar as decisões de dentro dela.

O que a planilha realmente faz num terminal

Planilha em operação portuária raramente é desleixo. Ela aparece onde o sistema não cobre, e quase sempre nos mesmos cinco lugares:

DecisãoO que a planilha fazO que deveria fazer isso
Janela de caminhãoagenda em aba por dia, sem limite por capacidadeagendamento com dosagem no TOS ou sistema de gate
Escala de equipamentoalocação por turno, montada na vésperadespacho dinâmico, ligado à fila real
Plano de pátiosegregação por cliente, mantida à mãoalocação de slot no TOS, por data de saída
Carga geral e armazémcontrole de posição e lote fora do TOSWMS integrado
Faturamento de serviços acessóriosapontamento manual de avulsosregistro na própria execução
Onde a planilha vive e o que ela substitui

Nas cinco linhas, o dado nasce e morre na planilha. O que está nela não existe para nenhum outro sistema: não entra em indicador, não alimenta previsão e não sobrevive à troca de quem a mantém.

"54% em planilha" e "36% usam IA" são o mesmo número visto de dois lados. Não há o que um modelo aprenda de uma decisão que nunca foi registrada.

Prancheta com uma planilha impressa sobre a mesa de um escritório de gate, com o pátio pela janela
A decisão registrada aqui não existe para nenhum sistema: não entra em indicador, não alimenta previsão e não sobrevive à troca de quem mantém a planilha.

Por que ela sobrevive

A resposta muda o plano de ataque.

  • O TOS não cobre o caso. A maioria dos TOS é desenhada para contêiner; carga geral, granel e serviços acessórios ficam de fora. A planilha preenche o buraco.
  • A exceção é a regra. Quando cada dia tem uma situação que o sistema não previu, a planilha é a única ferramenta que aceita o improviso na hora.
  • Ela é mais rápida para uma pessoa. Para quem monta a escala, a planilha resolve em dez minutos o que uma tela mal desenhada resolve em trinta.
  • Ninguém pediu o dado. Enquanto o indicador cobrado for movimentos por hora, o registro do porquê nunca foi necessário.

O quarto ponto é o que sustenta os outros três: planilha é um problema de demanda por dado, e não de ferramenta.

O que sai do Excel primeiro

Nem toda planilha merece um projeto. A ordem que funciona tira primeiro aquilo que é decisão repetida, tem consequência medível e não depende de terceiro.

  1. Janela de caminhão. Decisão diária, alto volume, consequência direta na fila e no gate, e o dado é todo interno. Sai da planilha para um agendamento com dosagem por capacidade, que limita quantos caminhões entram por janela conforme o equipamento disponível, em vez de só marcar horário.
  1. Despacho de equipamento. Mesma lógica de alta frequência e efeito imediato. Na APSEZ, produtividade de RTG subiu 20% e a de caminhão de terminal 14% sobre o TOS existente (Kaleris, junho de 2026).
  1. Plano de pátio. Maior ganho e maior dependência. Precisa de previsão de saída confiável, e 63% dos terminais apontam capacidade e utilização de pátio como dor primária. Em pátios restritos a ocupação passa de 80% com frequência, faixa em que os rehandles crescem de forma não linear.
  1. Carga geral e armazém. Exige WMS, é projeto de implantação, e é onde a planilha costuma ser mais profunda.

O que não sai primeiro: previsão de atracação. Ela depende de dado de armador, agência e autoridade portuária, e 60% dos terminais apontam a integração com parceiros e clientes externos como o desafio nº 1 de gestão de dados, acima de qualquer questão interna. Começar por aí é começar pela dependência que você não controla.

Por que o TOS não cobre tudo

O buraco não vai fechar sozinho.

A maioria dos TOS de mercado nasceu para contêiner. A unidade é padronizada, o movimento é discreto e o inventário é uma posição num grid tridimensional. O modelo de dados do sistema reflete isso.

O que não cabe nesse modelo:

  • Carga geral e projeto: peças com dimensão própria, sem unidade padronizada, que ocupam área e não slot. O controle vira posição aproximada em armazém, que é trabalho de WMS.
  • Granel: a unidade é tonelada, o "inventário" é um volume em pilha ou silo, e a movimentação é contínua, não discreta.
  • Serviços acessórios: pesagem, inspeção, reefer, repasse, armazenagem extra. São eventos faturáveis que acontecem no meio da operação e raramente têm um campo próprio.
  • Exceção documental: tudo que precisa de decisão humana registrada: liberação condicional, avaria, divergência de peso.

Nos quatro casos a planilha é a única ferramenta disponível que aceita um formato que o sistema não previu. Trocá-la exige estender o TOS ou colocar um WMS ao lado dele, o que é uma decisão de arquitetura e não de disciplina.

Como tirar a primeira planilha em quatro semanas

O erro comum é começar pelo sistema. O caminho que funciona começa pelo registro, e cabe num mês:

Semana 1, mapear a decisão. Quem decide, com que informação, em que momento do dia, e o que acontece quando erra. Uma planilha por vez; a da janela de caminhão costuma ser a melhor primeira.

Semana 2, registrar o que já é decidido. Sem mudar nada no processo, capturar as entradas e o resultado de cada decisão num formato consultável. O objetivo desta semana é ter série histórica, e não melhorar.

Semana 3, medir o custo do erro. Com duas semanas de registro, dá para cruzar a decisão com o que aconteceu: janela estourada, fila no gate, remanejo. Daí sai o número que sustenta o projeto.

Semana 4, definir a regra. A maior parte das decisões de planilha segue uma regra implícita que ninguém escreveu. Escrevê-la é metade do caminho para o sistema, e frequentemente já melhora o resultado antes de qualquer software.

No fim das quatro semanas existe uma linha de base. Sem ela, qualquer ganho futuro será contestável na primeira reunião de resultado.

O erro de pular a etapa

Se o problema é o dado, por que não comprar automação e resolver os dois de uma vez?

A resposta está medida. A automação de terminais entregou OPEX de −15% a −35% contra −25% a −55% esperados, e a produtividade caiu de 7% a 15% quando se esperava alta de 10% a 35% (McKinsey, dezembro de 2018, cerca de 40 portos e mais de US$ 10 bilhões investidos).

Entre as quatro causas nomeadas para o subdesempenho: dificuldade de tratar exceções operacionais, escassez de talento técnico, baixa qualidade de dados e operação em silos. Automação executa a tarefa e não melhora a decisão que manda nela.

O caminho inverso tem caso auditado no Brasil. Na Wilson Sons, o retorno veio de arrumar o dado antes de qualquer projeto de IA: de mais de 65 modelos de dados espalhados e 300+ dashboards legados para −40% em custos de Analytics, ROI estimado em 2 anos e dado processado a cada 20 segundos, em cerca de três anos, de 2023 ao início de 2026.

Por que agora, e não no ano que vem

Dois números dão urgência ao cronograma.

O volume está migrando. No terceiro trimestre de 2025, os terminais de uso privado movimentaram 245,0 milhões de toneladas (+8,5%) contra 135,3 milhões dos portos organizados (+3,2%): 64% do volume nacional, crescendo 2,7 vezes mais rápido (ANTAQ).

Não há folga para absorver falha. Um único dia de paralisação gera seis dias de backlog para desovar, e seria necessária 13% de capacidade excedente acima do fluxo usual para absorver (Sea-Intelligence, agosto de 2024). Terminal que cresce 8% ao ano sem melhorar decisão está consumindo a própria margem de recuperação.

O primeiro passo custa dias

A intervenção de maior retorno não é comprar sistema. É registrar a decisão que hoje mora na planilha: quem decidiu, com base em quê, e o que aconteceu depois.

Um mês desse registro já produz a linha de base que nenhum fornecedor vai poder contestar depois, e responde à pergunta que decide o projeto: quais decisões diárias ainda saem de planilha, e quanto custa cada uma quando erra?

A sequência é começar pelo dado, provar em um berço e escalar para o terminal.

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Gui Ferreira

CEO e Co-Founder

2x Apple Editor's Choice | 🚀 Designer por trás de produtos para Google, Mercedes-Benz, Microsoft, Samsung, IKEA e +300 startups | Construindo o futuro na Atomsix

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